
Como retratar na tela a vida e a obra de um dos maiores nomes da história da música mundial?
O longa documental mergulha de cabeça no poder artístico de Milton Nascimento, transformando sua trajetória em uma celebração da ancestralidade musical. Mais do que um simples retrato, o filme capta a música como algo intrínseco à existência, quase como um fluxo vital que atravessa gerações. A decupagem brinca com ritmos e sensações transcendentes, fazendo de Bituca não apenas um artista, mas uma entidade, um verdadeiro Deus da musicalidade.
Na verdade, parece que essa é justamente a proposta: como enquadrar um artista do tamanho de Milton senão como uma figura ancestral? E é exatamente isso que mais fascina no filme — a forma como ele respeita e abraça essa grandiosidade sem hesitação. A câmera não apenas registra Milton; ela o coloca em um pedestal digno de sua genialidade. Isso transparece em escolhas visuais marcantes, como a tela dividida que cria uma espécie de clonagem visual, quase duplicando sua presença e dotando-o de um poder divino, ou nos momentos em que sua potência vocal é evidenciada em toda a sua força.
Mas o documentário peca um pouco ao colocar em evidência o último show do artista gravado no estádio mineiro. Talvez, o registro do último show merecia ter sido lançado em algum streaming focando apenas naquele dia mágico e cheio de nostalgia e ter deixado muito mais histórias para serem contadas nesse documentário.
Tudo bem que contar sobre a vida e genialidade musical do Minton não é uma tarefa nada fácil, entretanto, por mais que o longa explore bem a arte transcendental de Milton Nascimento, sinto que o próprio filme não se aprofunda em todas as possibilidades imagéticas que essa arte oferece — e que ele mesmo defende ao longo do documentário. Mesmo com a narração gloriosa e imponentes da Fernanda Montenegro, em alguns momentos, a escolha estética da produção, lembra mais uma peça publicitária do que uma real imersão na essência criativa de Milton. Mas de toda forma, soa como uma magnífica homenagem aquele que é sem dúvidas, um imortal da música.